Certamente entre as coisas que mais amo na vida está me conectar com pessoas que despertam aquela paz que desacelera o mundo por dentro, como se tudo coubesse no lugar certo.
Pessoas com quem posso falar e ouvir sem pressa, receio ou alerta algum. Pessoas diante de quem não preciso ativar minha hipervigilância sempre atenta aos pequenos golpes sutis de um mundo adoecido. Quando encontro alguém de conversa leve e olhar sincero, sinto que meu coração pode descansar.
Nos últimos dias estive viajando e entre tantas pessoas que passaram pelo meu caminho algumas me marcaram não porque duraram no tempo, mas porque deixaram a lembrança desse sutil sentimento. São presenças que se acendem como uma chama que não queima, apenas aquece. A sensação de se sentir em casa mesmo estando fora dela.
Lembro desse sentimento numa roda de conversa, tinha esse sujeito nômade que parecia encarar o mundo de um jeito singular. Perguntei de onde ele era, “Minha casa é o mundo, eu sou do cosmos” disse gargalhando de si mesmo. Foi uma troca tranquila daquelas transparentes, sem intenções escondidas e sem ruído. A conversa fluiu como quem encontra sombra no meio da estrada e, de um jeito difícil de explicar, me descansou.
E antes que eu deixasse a cidade, no meu último dia naquela experiência, o acaso me presenteou com um esbarro distraído e naquele reencontro pude me despedir.
A despedida coube naquele minuto curto. Não precisei fazer declaração alguma e garanto que de algum modo ele sabia desse reconhecimento.
As trocas que mais me marcam são sempre assim. Conversas que não querem tirar nada. Não tentam persuadir. Não vendem. Não rotulam. Apenas existem com gentileza e isso hoje em dia soa quase como um milagre.
Foi então que lembrei de "O Idiota", obra de Dostoiévski.
No romance, o príncipe Míchkin é chamado de idiota porque carrega uma pureza que o mundo desaprendeu a reconhecer. Ele habita aquele espaço raro da sinceridade desarmada.
Enfim talvez sejam essas pessoas que cruzam meu caminho, mesmo que só por instantes, que guardam fragmentos dessa mesma beleza moral.
Há quem sinta esse eco por dentro como um reconhecimento. Para você que lê isso desejo que o acaso siga te conduzindo por caminhos que encontram a tua essência.
Dostoiévski escreveu que a beleza salvará o mundo. Beleza essa, creio eu, que acende pequenas chamas dentro da gente. A beleza dos encontros que devolvem, ainda que por instantes, a fé no humano.